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A RELAÇÃO ENTRE ARTE E MERCADO – UM BREVE PITACO


Dizem as más línguas que o ano só começa depois do carnaval. Independente de seguir ou não essa premissa, o fato é que este é o primeiro texto de minha autoria publicado aqui no blog este ano.

Minha carne é de carnaval, meu coração é igual e sendo assim, antes de mais nada, feliz ano novo!!!

Dito isso, vamos ao que interessa.

Na verdade, a ideia desse texto surgiu no último Diálogos ESPOCC, que contou com a presença da escritora Tammy Luciano, a partir de uma pergunta feita à convidada acerca da relação entre arte e mercado, arte e comercialização, passando por uma questão ontológica sobre o estatuto da arte a partir dessa mesma relação. Não me lembro literalmente da pergunta, mas me recordo que esta vinha acompanhada de um julgamento, a meu ver, de ordem moral, que dicotomizava o valor da arte como obra e como mercadoria.

A tentativa desse texto é, portanto, refletir acerca dessa relação, procurando trazer elementos que elucidem em linhas gerais a minha opinião sobre o tema. Não pretendo fazer um ensaio apurado, repleto de análises profundas, muito menos percorrer todos os caminhos possíveis de abordagem da questão. Quero somente dar o meu pitaco mesmo sobre o assunto.

Durante muitos anos de minha vida, eu trabalhei com essa relação dicotômica entre arte e mercadoria. Talvez imbuído de uma noção romântica da arte e da vida, para mim a verdadeira obra de arte não deveria se pautar de modo algum por normas de mercado e preocupações como a comercialização e vendagem do material produzido. Inclusive, como uma típica figura que circulava nos circuitos alternativos e no que podemos chamar de underground carioca – que por si só é um rótulo e um nicho em certo sentido também comercial, não percamos isso de vista – eu considerava que a arte somente fluía a partir de um mergulho do artista numa dimensão estética própria, em muitos aspectos, descolada da banalidade do mundo concreto e, por conta disso, de preocupações e anseios de ordem material.

No entanto, essa convicção – e o teor absoluto de quase toda convicção – começou a vir abaixo no momento em que me lancei à produção e publicação de um livro de poesia. A partir daí, comecei a perceber a questão com algumas novas nuances e perspectivas.

Em primeiro lugar, produzir um livro, um CD, ou qualquer outra obra de arte custa dinheiro. Logo, a primeira preocupação financeira que surge é com a própria produção de sua obra. Em segundo lugar, vivemos no capitalismo. Ainda que se procure e construa linhas de fuga e de relativização das artimanhas do capital, a obra de arte enquanto um produto do trabalho humano é uma mercadoria, com valor de mercado, valor de uso e de troca.

Não dependo de minha arte – poesia – para viver, embora dependa sim da produção de outros textos para meu sustento e sobrevivência. Seja na elaboração de projetos e relatórios, transcrição de material audiovisual, revisão e produção de textos acadêmicos como artigos, dissertação de mestrado e agora na construção de minha tese de doutorado, a escrita sempre acompanhou minhas atividades profissionais. Então consigo, desse modo, escapar das intempéries e vicissitudes do artista que trabalha para o sustento próprio e paga suas contas com sua arte.

Todavia, me pergunto, e quem não vive dessa forma? E quem depende da sua atividade artística para viver? É justo exigir dessa pessoa uma completa desvinculação das questões materiais e financeiras na sua relação com a inspiração ou com o trabalho estético em geral?

Acredito que não. E quando falo isso penso em algumas questões de ordem prática e histórica que fundamentam minha posição.

Não acho justo vincular a arte a uma atividade pura tal como um sacerdócio. A própria história da arte e a relação dos artistas com os seus mecenas, o clero e a nobreza demonstra que, tal como qualquer trabalhador, o artista também é explorado em sua força de trabalho.

Lógico que uma arte preocupada estritamente com razões econômicas tende, na minha opinião, a resultar numa expressão estética pobre, excessivamente modulada pelos interesses da indústria cultural. A própria influência e pressão exercida pelos editores, produtores, diretores e demais executivos do mercado sobre a criação intelectual acabam por forjar determinados padrões e homogeneizar a expressão artística conforme os ditames e modelos vigentes em cada período e contexto histórico e sociocultural.

A meu ver, ao invés de negar essa relação que me parece em muitos aspectos atávica entre obra de arte e mercadoria, o artista deve antes procurar, tal como qualquer trabalhador autônomo nos dias de hoje, dominar minimamente as diversas atividades e etapas da produção cultural. Hoje, mais do que nunca, com os avanços tecnológicos, o advento do espaço virtual, a ampliação dos canais de divulgação e veiculação, do acesso à informação, das redes sociais, o artista deve cada vez mais trabalhar contra a alienação, ainda que todos sejamos em alguma medida alienados dos processos produtivos que nos cercam.

Lógico que a vida é feita de escolhas e são as nossas escolhas que vão definir as formas de viver e se relacionar com o mundo. Mas o fato é que, acredito eu, todos artistas – ou pelo menos aqueles que expõem suas obras – querem ser vistos, lidos, ouvidos, conhecidos. O contato com o público é complementar à inspiração e ao labor desenvolvido, na medida em que mesmo no exercício solitário de sua arte coexiste a invenção desse “povo que lhe falta”, dessa peça final do quebra cabeça existencial da criação.

Além do que, quando penso em quantos artistas talentosíssimos – sambistas, compositores, atores, cantores, escritores, poetas, mestres de capoeira, etc. – foram engolidos pela indústria cultural, devorados como sujeitos descartáveis do processo e morreram na miséria, penso que cada vez mais temos que encarar essa relação entre arte e mercado como um elemento primordial na vida do artista, mesmo que no limite seja vivenciado como uma espécie de mal necessário.

 

Rodrigo Bodão