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Adaptações de livros e quadrinhos para o cinema, um desafio que nasce para cristalizar um debate que promete não ter fim: é possível agradar a gregos e troianos?

Olá leitores e leitoras, venho falar de um assunto que faz parte de nossa realidade há algumas décadas, mas discutido muito superficialmente, que é a questão da adaptação de obras literárias para o cinema. Tudo o que falarei aqui são conclusões minhas, o que não significa que eu seja o dono da verdade, afinal de contas, outras avaliações são possíveis.

Vemos muitas críticas aos cineastas – não negarei que também tenho as minhas – no que concerne às adaptações de livros e histórias em quadrinhos para o cinema: cortam capítulos e/ou cenas importantes – não sei se ponho aqui “importantes” com ou sem aspas, pois daí já teríamos uma questão: importantes pra quem? -, o perfil psicológico do personagem A ou B não foi “devidamente caracterizado”, personagens/lugares que são criados a bel-prazer, sem nenhuma conexão com as histórias, enfim, uma série de apontamentos por nós fãs que permeiam o mundo da ficção. Mas agora vejamos alguns dos problemas das adaptações.

A Literatura e as Histórias em Quadrinhos, em se tratando de ramos artísticos totalmente distintos do Cinema, jamais poderão ser totalmente suplantadas para as telonas, pelos motivos que creio serem relevantes: 1) Literatura, Histórias em Quadrinhos e Cinema são artes independentes, ou seja, possuem lógica interna própria dentro de sua argumentação: posso muito bem criar um livro, um quadrinho e/ou filme sem que precisamente um dependa do outro para existir; 2) Se possuem lógica própria dentro de seus argumentos, isso significa que o modo de se fazer um livro, quadrinho e/ou filme obedece as suas próprias regras de coerência interna e externa; 3) Se eu tento adaptar um livro para o Cinema, eis que surgem alguns desafios, tais como: 3.1) O livro é passível de muitas interpretações, logo categorias absolutas de “verdade”, “realidade”, jamais serão alcançadas, visto que a interpretação é um processo subjetivamente orientado pelas disposições de quem o faz; 3.2) Um livro é composto por textos, um filme por textos, imagens, áudios, cenários, figurinos e outros elementos que não estão presentes num livro, ou melhor, estão presentes nas construções mentais de quem o lê, e se a interpretação de um livro não é objetiva, eis o eixo central de meu argumento: como objetivar um conteúdo que é totalmente subjetivo?; 4) Estamos nos esquecendo de que um filme – estou sendo o mais pragmático possível aqui, e levando em consideração as grandes produções, sobretudo as hollywoodianas, se é bom ou não, deixo para vocês responderem – obedece as demandas de consumo, e se é assim, uma produtora quando resolve financiar um filme baseado em obras literárias, se preocupa com questões como: será rentável manter o filme o mais fiel possível ao livro? Qual o meu público alvo? Os fãs das leituras, os que frequentam os cinemas mas tampouco têm compromisso algum com leitura, encarando este como mera distração, os apaixonados pela sétima arte – como eu – que também leem, ou todos esses juntos, etc.?

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Harry Potter, um fenômeno literário da cultura pop consolidado na 7ª arte

Em relação a esse último ponto, creio que não somos tão ingênuos assim para acreditarmos que a indústria cinematográfica esteja fora do mundo da Economia ou da Política, a ponto de desprezarem públicos que certamente consomem seus filmes por quaisquer razões que sejam, para apreciarem, para se distraírem, para darem uns pegas nas salas de cinema, para espairecerem com os amigos. E se essa é uma preocupação dela (indústria), acredito que críticas dos fanáticos do tipo “esse filme é muito diferente do livro!”, “cortaram coisa pra caramba!”, “o livro é muito superior!”, são irrelevantes, quando na verdade deveríamos nos preocupar em responder a seguinte questão: Qual a intenção do cineasta ou da produtora em fazer um filme dessa ou daquela maneira?

Para ficar mais claro a vocês, darei exemplos concretos que compõem o universo nerd, do conhecimento da maioria. Vejamos a trilogia O Senhor dos Anéis. O pessoal que leu os livros, percebeu que nos filmes o personagem icônico Tom Bombadil não esteve presente na aventura. E por quê razões ele não apareceu? Será que Peter Jackson (diretor da saga) não leu o capítulo em que Bombadil é descrito por Tolkien? Claro que leu. Mesmo que Tolkien tenha escrito um livro inteiro sobre este personagem (As Aventuras de Tom Bombadil), nós não temos registro sobre exatamente o quê ele seja, o que gera apenas especulações no fandom tolkieniano. A explicação de Peter Jackson sobre a remoção dele (Bombadil) do primeiro filme da trilogia, A Sociedade do Anel, foi que era possível remover Bombadil do roteiro e ainda assim a aventura faria sentido, já que desde o início o ponto de chegada já estava dado para os espectadores: levar o Um Anel à Mordor e destruí-lo. Uma explicação satisfatória, mas convenhamos que seria um tumulto para os fãs mais radicais colocar Tom Bombadil nos filmes, sem saber sua classificação na literatura fantástica de Sir Tolkien, se ele é um elfo, um anão, um humano, ou quaisquer outras criaturas que aparecem nos livros. Sem contar que a narrativa dos livros foi criada para não destacar um personagem principal, como temos na maioria dos romances épicos escritos desde Dom Quixote – considerado pelos críticos de arte o início do romance tal qual conhecemos hoje, como o escritor Walter Benjamin cita em seu livro “O Narrador”. Tolkien priorizou a própria aventura e a estrutura de se contar uma história, como se ela própria fosse um personagem concreto. Peter Jackson, como cineasta visando ampliar o alcance dos filmes, alterou, ainda que sutilmente, essa forma de narrar O Senhor dos Anéis. Alguns personagens encarnados em atores famosos, como Frodo Baggins interpretado por Elijah Wood, foram fundamentais para a propagação da trilogia a um público que não leu os livros, mas conhece as pessoas que estão nas telas.

 

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Elijah Wood como Frodo Baggins

 

Um outro exemplo de adaptação, agora das histórias em quadrinhos, é o super-herói Batman, criado por Bob Kane. Por ser uma narrativa que integra uma publicação mensal, a perenidade do herói é maior que a de seu criador original, ou seja, ainda que Bob Kane no futuro não mais escrevesse as histórias do Homem-morcego, outros autores manteriam a vida do personagem e continuariam a escrevê-la. Quadrinistas como Alan Moore, Frank Miller e Grant Morrison tiveram a missão de contar novas aventuras de Bruce Wayne, o Batman.

 

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Michael Keaton como Batman e Kim Basinger como Vicki Vale, no filme de Tim Burton

E isso complica a vida do cineasta quando se pretende criar uma adaptação cinematográfica. Mesmo respeitando o cânone estabelecido, onde buscar as referências para um filme? Quem teve a oportunidade de ler as HQs escritas por Alan Moore e Frank Miller – e outros autores que também escreveram e/ou desenharam Batman -, percebeu que o Batman de um possui algumas características distintas em relação ao outro, como uniforme diferenciado, arquétipo seguindo as preferências autorais, entre outras coisas. Quando Tim Burton dirige o primeiro filme, em 1989, tinha um baita pepino nas mãos: consolidar na película um personagem com vários “criadores”. O quê priorizar? Basear-se em histórias já contadas, pautadas no cânone, ou algo inteiramente novo?

São esses e outros desafios que atravessam o mundo do cinema, para além do conflito artístico que envolve a transposição da obra literária para a linguagem cinematográfica. Um composto de inúmeros desafios se faz presente, e cabe a nós cinéfilos enxergarmos as minúcias que se constroem, tentando visualizar os caminhos pertinentes que a Literatura ou os Quadrinhos adquirem para as adaptações levadas à sétima arte.

 

Paulo Henrique Reis

 

http://lounge.obviousmag.org/delirio_poetico/2014/07/adaptacoes-literarias-para-o-cinema.html