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ADORNO, VALÉRY, PROUST E AS POSSIBILIDADES DE FRUIÇÃO ARTÍSTICA

Quem nunca sentiu uma sensação estranha ao entrar numa galeria de arte, ou num museu? Theodor Adorno (1903-1969), um dos integrantes mais renomados da famosa Escola de Frankfurt, abordou essa questão a partir de uma síntese teórica entre textos de Paul Valéry (1871-1945) e Marcel Proust (1871-1922), num brilhante artigo que influenciou significativamente os futuros trabalhos escritos sobre obras de arte.

No artigo “Museu Valéry Proust”, Adorno faz uma análise das visões que Paul Válery e Marcel Proust possuem sobre a ideia de museu, comparando-as e tecendo sua própria contribuição teórica. No começo do texto lemos que “os museus são como sepulcros de obras de arte, testemunham a neutralização da cultura”. A descrição feita por Valéry em sua experiência numa visita a um museu é extremamente pessimista no que se refere a sua atmosfera fruitiva; tudo está desconexo, fora do lugar e do tempo, as regras de comportamento que causam constrangimento ao visitante, como falar em baixo tom, não tocar em nada, essas e outras questões são apontadas como influenciadoras da apreciação da obra de arte. Para Valéry, a obra de arte é um fim que encerra sentido em si mesma, não necessitando mais de seu autor para existir logo que ganha vida, possuindo um valor análogo ao que Walter Benjamin vai discorrer sobre o conceito de “aura” em seu ensaio “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. Se da obra emana esse valor (muito além da estética) quase espiritual, alterar seu curso é como um sacrilégio. Retirá-la do seu contexto de nascimento e expô-la em um espaço como o museu, acaba por lhe ferir a soberania artística, produz, nas palavras de Valéry, poucas delícias. O próprio Adorno encontrou dificuldade para traduzir o sentido que Valéry quis atribuir ao expressar o termo “delícias”, mas utilizando uma interpretação livre e por similitude podemos fazer um paralelo ao que Benjamin chama de “aura”, sendo delícias a relação produzida entre o expectador, a obra e o próprio ato de contemplá-la.

Valéry ainda fala do mal-estar que o museu causa nas pessoas pela quantidade de quadros e esculturas à mostra. Para ele, o número excessivo de obras reunidas num só lugar dificulta a fruição que poderíamos ter com uma obra específica, o que caracteriza uma superficialidade na relação pessoal com a própria arte. Marcel Proust tem uma narrativa um pouco distinta em relação a Paul Valéry. Adorno aponta alguns pontos importantes onde ambos divergem, e busca uma interpretação para a relação Museu-Valéry-Proust, título de seu artigo. Enquanto Valéry tem uma visão essencialista da “coisa em si” no sentido platônico que separa o mundo sensível do mundo das ideias – diria até que romântica demais -, buscando uma objetividade, Proust está preocupado mais com os subjetivismos que a fruição da obra de arte proporciona. Longe desse viés parnasiano da “arte pela arte”, Proust entende que o mundo da arte não pode ser encarado como valores absolutos e universais. O que importa é a negociação que se forma entre o artista, a obra e o expectador, e como ela se constrói. O ato de fruir é individual, logo cada pessoa vai reagir de maneira diferente em relação a uma obra, e esta vai impactar o expectador de modo singular, de acordo com suas experiências de vida e suas referências sociais/artísticas. É esse o ponto que difere Valéry de Proust. O museu para Valéry é uma instituição que causa uma morte “negativa” nas obras, por retirar delas a proposta valorativa de sentido em si mesmas, sua imanência; para Proust, é uma morte “positiva”, já que um lugar que seja específico para a contemplação da arte possibilita às pessoas que não estiveram no momento – espaço ou tempo – da criação da obra a oportunidade de fruí-la, a partir de suas preferências e construções mentais que adquiriram ao longo da vida.

Angelus Novus Paul Klee

Angelus Novus, aquarela de Paul Klee, 1920.

 

A luta entre as permanências e as transformações no campo da arte responde ao próprio desenvolvimento do meio artístico, ao olhar de Proust, citando o exemplo da música. As especificidades de uma cantiga não são as mesmas de uma ópera de Beethoven, sendo a primeira uma construção livre das técnicas da métrica, acordes teóricos, inscrição em clave, e por isso confere subjetividade a quem frui, dada a interação entre o intérprete e o ouvinte; uma música beethoveniana responde a evolução – no sentido mais pragmático e violento que o evolucionismo possa ter, de superação de algo “retrógrado” e “ultrapassado” – da indústria fonográfica, que produz sob um sistema de leitura universal que possa ser tocado e interpretado por quaisquer músicos, desde que dominem os padrões teóricos que a compõem, logo, uma obra “acabada”. Aspecto semelhante a esse é tratado no livro “O Narrador”, de Walter Benjamin. O contraste entre o fim da narrativa oral e a invenção dos meios de comunicação impressos asseguraram a vitória – não sem resistência – da escrita, e permitiu que os leitores não mais precisassem da figura do narrador, que funcionava como o intermediador da história e era o responsável por transmitir toda a atmosfera literária com sua entoação dos fatos interpretados, e passassem a se conectar com a fantasia de maneira individual, e portanto, com uma experiência mais subjetiva e sem mediações em relação à obra. Para um seguidor das ideias de Valéry, essa “reprodutibilidade técnica” (abordada nos livros do Benjamin citados) seria um mal, pois diminuiria o contato com o original, o puro, único digno de possuir a carga valorativa e artística que possibilita as “delícias”; para os seguidores da teoria proustiana, a reprodução nascida com a invenção da imprensa em larga escala abre um mundo de possibilidades a todos e todas que não puderam entrar em contato com o que seria o “autêntico”, logo amplia e democratiza a arte.

As meninas Velasquéz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Meninas, óleo sobre tela, Diego Velázquez, 1656.

 

Adorno alega que Proust pensa a arte a partir do sujeito, e Valéry, da coisa. Sua conclusão sobre a visão de ambos é que não se pode apontar um vencedor para esse conflito, sendo os dois complementares para entender as contradições que permeiam as relações de poder dominantes e subversivas no campo da arte. Não só eleva a importância da contribuição dos dois à teoria da arte, como também mostra as limitações de suas narrativas. Proust nesse caso seria (a seu modo) tão romântico como Valéry, pois ainda que defenda a subjetividade e a relação obra/expectador, aborda o mundo da arte como ela deve ser, e não como ela é. Para Adorno a objetividade, ainda que inconfessa e invisível, se dá no instante da produção da própria obra, visto que o artista procura solidificar seu trabalho e sua experiência em algo, por assim dizer, finalizado. Em contrapartida, Valéry também se mostra ingênuo por não perceber que a variável tempo é mais letal à mortalidade da obra de arte do que os museus, pois as negociações do presente estão mudando a todo momento, e são elas quem ditam quais obras e/ou vanguardas possuirão valor de prestígio, e quais serão marginalizadas pela hegemonia.

 

http://lounge.obviousmag.org/delirio_poetico/2014/11/adorno-valery-proust-e-as-possibilidades-de-fruicao-artistica.html