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AS CABEÇAS DAS PERIFERIAS

Por: Rodrigo Bodão (rodrigo@observatoriodefavelas.org.br)

Foto: Janine Magalhães / Diálogos

O que lhe remete, quais ideias, quais palavras e representações lhe ocorrem diante da expressão “a cabeça da periferia”?

Mais ou menos com essas palavras, Marcus Faustini iniciou sua fala na sessão inaugural dos “Diálogos ESPOCC”, realizada no dia 25 de agosto. Daí em diante, uma série de argumentos e provocações foi apresentada de maneira lúdica, produzindo intervenções, reflexões e questionamentos variados nos corações e mentes da plateia.

Já de saída, uma contradição se configurou para mim, embora, num primeiro momento, não tenha conseguido organizar as ideias em torno de uma linha de argumentação com um mínimo de coesão textual, tarefa que tento realizar agora.

A cabeça, anatomicamente falando, sempre esteve ligada a uma ideia de hierarquia das funções físicas e psicológicas, como sede da mente e núcleo organizativo do pensamento e das ações humanas. Essa centralidade e hierarquia são imediatamente questionadas e deslocadas de seu eixo usual quando vinculadas à noção de periferia.

Será um deslize? Um equívoco? Muito pelo contrário: o uso dessa contradição aparente não tem nada de ingênuo.

A intenção que adivinho – ou invento – é a de justamente demarcar a precariedade e origem dessa forma hierárquica de se pensar a cidade, a cultura, o Brasil e os brasileiros. A própria expressão que deu sequência à dinâmica proposta – “cabeça da elite” – quando articulada ao conceito de modernidade nos dá bem a sua dimensão crítica e inventiva.

Essa suposta cabeça pensante que buscou narrar do alto de sua arrogância um sentido para o Brasil, impregnada de modelos e padrões dominantes de um eurocentrismo tosco gritante, é atacada de todos os lados pelos que ficaram de fora dessa festa – ou recusaram o modo em que foram convidados. Pelos que resolveram arregaçar as mangas e protagonizar sua própria cena.

A ideia de território e a implosão dos sentidos dominantes de uma identidade popular, formulados verticalmente, faz brotar em todos os cantos novas centralidades, novas cabeças pensantes de todos os cantos da cidade que não aceitam os rótulos e estigmas usuais e tomaram para si a palavra e a ação e o direito de se definir, se nomear, desvelando e produzindo toda a pluralidade e diversidade existenciais possíveis.

Existe muito a se fazer e cada vez mais. Nada está ganho, é preciso estar atento e forte.

Parte desse esforço é o que fundamenta a própria ESPOCC, uma escola que questiona o sentido de escola, disputa o popular dispensando generalizações apressadas e trabalha com uma formação em comunicação crítica que procura sacudir as percepções acomodadas e produzir junto com os alunos, professores e demais envolvidos nesse processo novas centralidades, novas representações, novas formas de pensar e agir politicamente.

Assim, nosso esforço se volta contra a hierarquia organicista de um positivismo caduco. Queremos antes a multiplicidade mitológica de uma Hidra de Lerna.

Abaixo a elite tacanha! Viva longa aos xamãs das favelas e periferias!

Diálogos ESPOCC