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Carta de uma Nova Carioca ao Senhor Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro

 

Camila Sousa Santos

 

Andei lendo na Internet sobre a sua campanha de reeleição à prefeitura do Rio e descobri algo em comum entre nós. Ao que parece, acreditamos em uma cidade integrada, da zona sul à zona norte, e queremos emprego, cultura e transporte, da Barra até Bangu. Devo dizer ao senhor que também quero educação, saúde, moradia digna, saneamento básico, segurança e respeito como cidadã que sou. Imagino que também concordamos neste ponto.

 

Outro dia, vi na televisão o senhor dizer que talvez o Rio não tenha melhorado para todo mundo, mas que a cidade já melhorou para muita gente. Concordo com o senhor, em parte, e não vim aqui falar da vida daqueles para os quais o Rio melhorou; até porque, senhor prefeito, para estes, o Rio sempre foi a cidade maravilhosa, aquela mesma cidade vendida para o mundo como mercadoria de exportação “made in Brazil”, cidade tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza – mas que beleza! Aliás, a Barra da Tijuca está linda! Parabéns pelo trabalho. As estações BRTs são ótimas e faltam apenas faixas de pedestres para que não morra mais ninguém atropelado. Também não consigo entender porque estas pessoas insistem em atravessar no meio da rua, ainda mais em vias expressas. Imagino que o senhor também não compreenda o que se passa na cabeça dessas pessoas. Será que é por que na Barra da Tijuca é necessário andar longas distâncias até chegar a alguma faixa de pedestre e também porque não há tantas passarelas para pedestres quanto necessárias? Fico aqui sem saber, apenas especulando, já que não moro na Barra e nem em Bangu. Ih, mas acho que a BRT também não chega até Bangu. Chega?

 

Falarei então de onde conheço. Moro em Jacarepaguá, trabalho na Maré e frequento a Tijuca. Em Jacarepaguá também não tem BRT, embora eu tenha Bilhete Único. Próximo à minha casa passam apenas três linhas de ônibus e nenhuma delas me leva direto para o meu trabalho, o que me obriga, todos os dias, a pegar uma van até o Rio Centro e de lá em diante eu uso o meu Bilhete Único, descendo na Linha Amarela, pegando outro ônibus até a Maré e pagando apenas uma passagem. A volta é igual. É uma viagem interessante, um momento do meu dia onde eu percebo outras partes da cidade. Tenho tempo de sobra para tal percepção e tenho uma visão privilegiada para isso – quase 360° graus – já que quase sempre estou em pé durante todo o percurso. O calor humano também é uma diversão à parte: não sei quanto ao senhor, mas eu adoro gente, ainda mais assim, quando está bem pertinho, naqueles dias em que a temperatura beira os 40°, sabe?! Se o trânsito estiver parado então, uhuh!, esse é o meu momento delícia do dia! Nossa, falei tanto que quase me esqueci de lhe agradecer pelo meu Bilhete Único, senhor prefeito. Ele me faz feliz e me leva além! O senhor já deve ter percebido que eu gosto mesmo é de me mover pela cidade e assim fui parar na Maré.

 

Na favela eu vejo muito negão, mas confesso que ainda não vi nenhuma loirinha de olhos azuis e que mora na Zona Sul disposta a se mudar pra lá. Alguns negões que eu conheço lá também não tem mais vergonha de dizer que moram na favela, mas o que eu queria mesmo, senhor prefeito, meu desejo mais íntimo, é que a nossa cidade deixasse de ter vergonha da nossa favela. Acho que aí sim estaríamos falando do mesmo tipo de cidade integrada. No dia que isto acontecer, de fato, poderemos cantar em dueto que “nossa cidade mudou, melhorou e se
tornou mais bela. Da zona norte ao Leblon, como é bom dizer que eu moro nela”. Vamos fazer um churrascão? Na favela. Convidar os amigos, aqueles do “Juntos somos fortes” e do “Somos um Rio”? Pode ser neste final de semana… Pedirei ao pessoal de lá para te apresentar para as atrações que vão animar a festa e se prepara para aprender os passinhos com os “menó”. Provavelmente, na segunda-feira você estará mais famoso do que nunca, com vídeo no Youtube e com mais de um milhão de acessos; mas não esquenta não que você estará ótimo no vídeo. Não é que o pessoal de lá da favela faz vídeo e edição como ninguém, rapaz.

 

Já viu que nossa conversa vai longe, né?! Vou colocando a cerveja no gelo… Precisamos falar mais sobre emprego, cultura, educação, saúde, moradia digna, saneamento básico, segurança e respeito. Outra hora também te falo sobre a Tijuca.