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DAR VISIBILIDADE PARA OS INVISÍVEIS

Por: Rodrigo Bodão (rodrigo@observatoriodefavelas.org.br)

Fotos: Janine Magalhães / Diálogos

Depois de Faustini, o Diálogos ESPOCC do dia 08 de setembro trouxe Pablo Capilé, do Coletivo Fora do Eixo. E eu que vinha elaborando um texto sobre o lugar de fala que sustenta minha participação como colaborador do Observatório de Favelas, diante da variedade de tópicos e temas levantados durante o evento, tive que rever meu planejamento.

No final das contas, confesso que gostei da ideia: uma espécie de trilogia da periferia, salvando meu esforço do final de semana e o desejo de falar sobre o evento em questão.

Eis aqui então, o segundo episódio…

Enquanto no primeiro encontro a discussão girou em torno das periferias urbanas, no segundo, com Capilé, ganhou contornos nacionais, ampliando a análise das relações entre centro e periferia com a problematização das condições de visibilidade e alcance dos trabalhos de artistas e agentes culturais do interior do país em contraste com os grandes centros localizados no sudeste brasileiro.

Desse modo, o trabalho se alinha com a perspectiva de criação de espaços coletivos e redes de comunicação capazes de dar visibilidade aos invisíveis, dar potência e volume às diferentes vozes de territórios diversos que são usualmente soterradas pela produção dos grandes centros.

Mais uma vez se aponta a periferia como a possibilidade de surgimento do novo, da produção e proliferação de novas narrativas e novos sujeitos. Novos agenciamentos inventivos com um potencial singular de revigorar o cenário nacional e se opor ao discurso dominante, pesado, inchado, paquidérmico. Discurso dominante que possui obviamente sua força, mas prescinde da agilidade e sagacidade dos que produziram rupturas e fendas capazes de amplificar e reverberar seu poder de resistência e invenção.

O antropólogo Darcy Ribeiro já dizia que caberia aos que ocupam as classes subalternas e oprimidas o papel de renovar a sociedade, uma vez que estes sujeitos só tem a perspectiva de integrar a vida social rompendo as estruturas que sustentam as desigualdades sociais nesse país. Mesmo não levando essa afirmação ao pé da letra, uma vez que devemos ter em mente a complexidade que essas estruturas se apresentam em qualquer outro território, as condições de invisibilidade e precariedade vivenciada nas periferias nos permite apostar nessa ideia.

Mas para que essa aposta se realize, não basta contar com a sorte: é preciso arregaçar as mangas e cair pra dentro!

Aliás, já que isso aqui se pretende uma trilogia, lembro logo de Matrix e da forma como se davam as conversas entre o Oráculo e Neo, personagem de Keanu Reeves no filme. Suas revelações e premonições, sempre cercadas de incógnitas e duplos sentidos, produziam uma tensão permanente nas várias bifurcações e dilemas encontrados. Assim, a própria tensão dessas situações impulsionou as escolhas que forjaram a construção desse lugar do Escolhido. O mais importante não é conhecer o caminho, mas percorrê-lo. O percurso, portanto, é sua própria construção.

E isso ficou claro na fala do Capilé quando contou todo o desenvolvimento das ações que culminaram com o Coletivo Fora do Eixo, a Mídia Ninja e todos os avanços e conquistas produzidas ao longo do trajeto.

E essa também foi a tônica de sua última fala, respondendo a uma pergunta de uma aluna sobre possíveis dicas para o trabalho que se pretende desenvolver no âmbito da ESPOCC.

Para além da riqueza pedagógica existente nesse percurso e sua construção, a prática, a ação, a gestão diária tem a singularidade de trazer consigo elementos muito mais vigorosos que qualquer teoria ou planejamento com pretensões proféticas. São os obstáculos e dilemas encontrados e os rumos traçados a partir de nossas escolhas que acabam dando a liga necessária para uma construção consistente. A teoria é tributária da prática e não o contrário.

Pelo contrário, a ênfase na teoria acaba por nos fazer perder a multiplicidade de sentidos possíveis da vida, fazendo com que muitas vezes se procure adequar a realidade à sua teoria, “esperando alguém que caiba no seu sonho” – como diria Cazuza – em malabarismos conceituais desgastantes e inócuos.

Meter a mão na massa, cair pra dentro, meter as caras. Esse é o segredo para não ficarmos “como varizes que vão aumentando, como insetos em volta da lâmpada”. Atitude que caracteriza, grosso modo, o tal “meinho” que tanto falou Capilé – que aliás é uma alcunha genial!

Bom, mas como o tema é vasto e a lauda é curta, esse assunto vai ficar pro terceiro episódio…

capilé