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POESIA – Iury de Carvalho Lobo

 

Me chamo Iury de Carvalho Lobo, sou morador da Maré, mas já passei pelo Alemão, Manguinhos, Ramos, São Francisco Xavier e Copacabana. Nasci em Vassouras, interior do Rio e comecei a escrever por lá. Desde muito novo, na escola, entre uma aula e outra que mexesse comigo, eu começava a escrever. Nunca mais parei. Conforme fui andando pelo mundo e conhecendo mais pessoais e lugares, trabalhando com comunicação, cultura e arte, essa vontade de escrever foi aumentando ainda mais e, mais do que isso, a vontade de que ouvissem essas mensagens. Hoje em dia tenho me apresentado em saraus, intervenções urbanas e shows.

 

 

A PALAVRA

 

Tanto tempo encontrá-la, veio num anúncio qualquer: a palavra…

 

E já me esquecia de tão qualquer fora o anúncio, mas me veio outra: cata…cata…cata-vento

 

Como se possível fosse, catar o vento (sussurrado)

Uma casa, toda fechada, hoje suas janelas encortinadas não esconderam nem os mistérios de suas visitas, talvez eu não esteja sendo clara, mas vão entender quando chegar o descontentamento, a discordância, ou seria o descontrole e a discórdia, ou nenhum, talvez eu ainda não esteja claro, talvez eu nunca seja, talvez a pele é que escureça tudo, mas ainda assim tenho as visitas misteriosas ou como dizemos para os caros, claros: os mistérios de minhas visitas.

 

Se chegaram, se achegaram, se aconchegaram, talvez comessem, talvez bebessem, talvez divertissem talvez se (pausa) divertissem e rissem, sorrissem, só rissem mesmo, eu ri sem nada. Rir sem nada coisa de pobre, de visita de pobre, de visita de pobre preto. E agora?

 

Chegou o descontentamento, a discordância, o descontrole, ou será a discórdia?

Será que fui claro?

 

 

REQUINTE PRETO

 

Que fosse santa a reunião, mas não terminasse

Que fosse pudica e não indagasse uma vigília, aliás nunca vigilasse,
Nunca me parassem em barricadas
Que me revistassem e pedissem por favor e ainda assim…
Mas se fosse “Raízes” falassem amor.
Falassem verdades,
Falassem um sistema opressor que caísse e se virasse pro cotidiano,
De um Ano Novo, Liquor, peru, Cidra e Pobre
pobres negros de cabelos pro alto
E fossem alto dançar, cantar, arte virar, arte afirma-se
Nós subimos morros
Nós convidamos a entrar
Nós não somos pretos tão claros na fala, tão brilhantes no dom?
Mas não segregadores no som
Demos funk, samba, gueto, poesia
Requinte de preto é ser pobre, é ser feliz, é ser gente, é ser nós
E fala que é nós, bota uma cerveja e não pede fiado.
Paga, paga o que consome
Paga uma história sem nome e tantos sobrenomes
Paga por lutar
Paga por fazer do Rio o tal mar
Somos convidados, somos convidados, mas antes seremos sempre os tais coadjuvantes
Nunca serão, nunca verão
Somos quem recebe
Somos filhos de quem precede uma gente , um povo, uma história
E cabelos duros ao alto somos maré
Somos mais do que se pensa que é
Sou poesia, dança, música, criação e de tudo qualquer um poderá me vê:
Ação, arte, rua, povo, benção ou coração

 

(Foto: Xandu – Ratos Di Versos)