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ISSO NÃO TEM A MENOR GRAÇA – A PATÉTICA RELAÇÃO DA MÍDIA E DO HUMOR COM O MUNDO QUE NOS CERCA

Por Rodrigo Bodão (rodrigo@observatoriodefavelas.org.br)

Nos últimos dias, uma série de acontecimentos relacionados à TV aberta me chamaram atenção e me fizeram refletir sobre a forma com que os grandes meios de comunicação brasileiros veiculam representações que na maior parte do tempo reforçam e naturalizam certos estereótipos e preconceitos.

Por outro lado, é gritante o modo como se esquivam e se isentam de responsabilidade em diversos momentos em que essas representações veiculadas afetam e se relacionam intrínseca e diretamente com a realidade.

Para ser mais direto, minhas reflexões foram disparadas a partir de dois eventos específicos: a fatídica escolha do título e a repercussão negativa vinculada ao programa “Sexo e as negas” e a reação violenta de represália contra a torcedora do Grêmio acusada de injúria racial. Eventos que indicam uma tendência geral de comportamento e uma linha editorial comum da televisão brasileira, e mais especificamente canais de TV aberta, em seus programas de humor e entretenimento.

No primeiro caso, logo que vi a chamada para o programa, imediatamente a primeira coisa que pensei foi “para que isso?”. Pensei exatamente essas palavras por conta da agressividade embutida nesse título.

Assim, imediatamente eu me senti estupefato diante do nível de confronto que se chega contra o que usualmente chamamos como “politicamente correto” e com os movimentos sociais de minorias. Dois elementos com os quais tenho milhões de críticas e ressalvas, mas não posso também nem ignorar a sua importância e muito menos me solidarizar com a manifestação contrária patética efetivada pelos meios de comunicação.

No caso desse título, era óbvio que provocaria a ira do movimento negro e nem meu lado mais poliana e ingênuo me convence que não houve intenção de agredir ou foi motivado por um descuido ou uma preguiça intelectual. Sou poeta e já participei de diversas disputas de samba em blocos de carnaval, sei muito bem como a gente toma cuidado e sabe quem atinge e quem agrada com a escolha das palavras. E são sempre escolhas, não adianta, sempre se pode usar outro termo, outra ideia, outro formato.

Inclusive acredito que a própria divulgação prévia tinha o intuito de provocar as entidades ligadas ao movimento negro, despertando sua ira e produzindo, a partir de suas críticas e manifestações, uma divulgação maior para o programa, colhendo os frutos da repercussão e da controvérsia aberta, manipulando-a a seu favor – o que em certa medida aconteceu.

Por outro lado, as respostas veiculadas demonstram também que existe uma nova geração de jovens negros e negras com formação universitária, oriunda das cotas raciais vigentes no país, que estão mais ligadas para as repetidas e difusas formas de racismo existentes na sociedade. Assim, ao invés de uma ampliação dos casos de racismo o que há é uma percepção mais aguçada e uma reação mais contundente contra o racismo que sempre houve no Brasil. Falta ainda um maior senso tático e estratégico nas ações para não fazer o jogo do adversário, mas isso se adquire com o tempo, acredito.

Mas o confronto, esse é urgente e necessário.

Prova disso é a forma como todos, praticamente todos os programas de humor adotaram aberta e francamente a veiculação de personagens e piadas pejorativas que sacaneam características físicas das pessoas, além dos já cansativos estereótipos vinculados ao gênero, orientação sexual, origem geográfica, classe social, dentre outros. E muitos fazem questão de repetir piadas contra os movimentos sociais, ironizando suas reações e ridicularizando-os ostensiva e repetidamente.

As respostas dos veículos de comunicação geralmente vão na direção de que se tratam de piadas, de que não se pretende ofender, que sempre foi assim ou que os estereótipos têm uma vinculação concreta com a realidade que eles apenas reproduzem. Ou seja, se isentam do debate e da perpetuação desses mesmos estereótipos, reclamando uma eterna e mitológica imparcialidade diante dos fatos.

E o pior é que nós, em muitos casos, acabamos naturalizando essa espécie de isenção da mídia. Digo isso por conta do segundo caso apontado acima, o da torcedora gremista que incorreu em crime de injúria racial ao xingar o goleiro Aranha, junto com diversos outros torcedores e que vem sofrendo represálias violentas por parte de, acredito eu, torcedores do Grêmio revoltados pela eliminação de seu clube da Copa do Brasil. Eu pelo menos não vi nenhum texto ou postagem que responsabilize a mídia e o modo como o caso foi abordado de maneira sensacionalista pelas reações criminosas que ela vem sofrendo desde então.

Aliás, antes de mais nada, já que estou tratando de um tema polêmico, de modo algum acho que se deva relativizar o caso de injúria racial ou amenizar a punição ao clube e à jovem em questão por conta das consequências nefastas de seu ato e sua repercussão. Não se trata disso. Mas é óbvio que o apedrejamento e o incêndio criminoso da sua casa e as retaliações e represálias são do mesmo modo abomináveis e há muito passaram dos limites.

Não sei exatamente como controlar esse tipo de coisa, como se precaver e limitar o sensacionalismo da mídia, uma vez que a própria população consome avidamente e aprova, desse modo, esse procedimento, mas é um absurdo que ninguém, nenhuma discussão seja levantada no sentido da responsabilidade dos meios de comunicação com relação à vida e à integridade física das pessoas.

Aqui mesmo no Observatório de Favelas, mantidas as devidas proporções, por diversas vezes, tínhamos todo um trabalho de controle da mídia com relação ao sigilo, à preservação da identidade das pessoas e procurávamos ter mesmo uma incidência nas pautas e perguntas que eram formuladas aos moradores em reportagens motivadas por operações policiais ou situações de confronto armado nas favelas. É incrível e completamente revoltante o modo como a mídia comercial geralmente se porta de maneira completamente descompromissada e irresponsável, expondo às pessoas a toda forma de retaliação e violência em troca da venda de jornais ou da audiência.

Esse é um debate que nós, como integrantes de uma Escola Popular de Comunicação Crítica não podemos nos furtar e deve nos acompanhar constantemente seja no nosso processo de aprendizado coletivo, seja em nosso exercício profissional.

Uma coisa é fazer com que a lei se cumpra. Outra é lucrar irresponsavelmente com isso e não medir o alcance e a repercussão de suas ações.

Bom, é isso. Eu ia falar sobre o Pelé, mas deixa pra lá. Até porque o baixinho em tempos atrás já deu o melhor veredito possível sobre esse ídolo do futebol que tantas alegrias nos trouxe nos gramados e tanta vergonha e revolta nos provoca em suas declarações imbecis – que Pelé calado é um poeta.