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O dia que Bonsucesso virou Macondo (*)

 

Conheci João (nome fictício) numa das minhas primeiras idas a campo no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e outras Drogas Miriam Makeba (CAPS AD III Miriam Makeba). Para quem não sabe, desenvolvo desde 2013 uma pesquisa de doutorado sobre as práticas de atenção e cuidado aos usuários de crack no território da Maré e esse dispositivo público é um dos espaços primordiais no qual venho desenvolvido meu trabalho de campo.

Após uma assembleia de usuários do serviço, ficamos ali no pátio, eu, ele e mais alguns outros sujeitos atendidos por esse dispositivo de saúde mental conversando, jogando conversa fora, preenchendo e embalando a passagem do tempo na cadência prosaica e morna de um bate papo regado a café, cigarro e uma brisa mansa que anunciava o fim de tarde e o cair da noite pelas bandas de Bonsucesso.

João vivia em situação de rua, mas há pouco tempo está morando em um quarto alugado em Rubem Vaz, na Maré. Conversa vai, conversa vem, João começou a contar uma série de histórias e aventuras que vivenciou durante uma longa viagem na qual, segundo o próprio, ele conheceu quase o Brasil inteiro, com exceção da região sul, além de alguns países da América Latina como Guiana Francesa, Colômbia, Bolívia e Paraguai.

Para realizar essa viagem, João lançou mão de uma série de estratégias e modos distintos de sustento, transporte e locomoção. Longas caminhadas a pé pelas estradas; caronas em caminhões, onde seus dotes culinários eram oferecidos e serviam como permuta para longas travessias, além do próprio trabalho pesado de carregador; viagens de ônibus, ora custeadas por ele próprio com o dinheiro arrecadado através das mais diversas atividades profissionais como pedreiro, faxineiro, dentre outras, ora com o pagamento de serviços voltados para o transporte de materiais contrabandeados nas fronteiras do país, ora com as passagens financiadas por terceiros e ainda por passagens rodoviárias conseguidas junto aos órgãos públicos de assistência social, nas cidades onde dormia na rua e por aí vai.

Toda aquela trama de caminhos e descaminhos, encontros e desencontros, riscos e aventuras eram acompanhados de um brilho nos olhos crescente, nitidamente potencializados pelo próprio brilho dos meus olhos diante daquele relato e daqueles causos dignos de uma obra prima do realismo fantástico.

Tribos indígenas, madeireiros, prostitutas, assistentes sociais, policiais, contrabandistas, traficantes, garimpeiros, ladrões, padres, pastores, beatas, bêbados, maconheiros, bichos e paisagens de cartão postal eram alguns dos elementos que compunham seus mosaicos imaginários, tudo costurado numa fala bem articulada apesar das marcas, cicatrizes, dos poucos dentes e nítido desgaste físico promovido pela ação do tempo e das agruras e dificuldades próprias de uma vida marcada pela pobreza, alcoolismo e sofrimentos variados – mas também plena de alegrias e momentos felizes.

Por diversas vezes nessa cerca de uma hora e meia eu me perguntei sobre a veracidade daqueles contos tão ricos de detalhes e contados com uma simplicidade envolvente. E perdi meu tempo nesses desafios obsessivos de buscar uma falha, uma fissura no discurso, um buraco naquela narrativa que expusesse a falsidade e a mentira. Até que percebi o tamanho da tolice que havia nessa minha atitude.

Porque, afinal, o que menos importava era se aquelas histórias eram reais ou inventadas, verídicas ou mentirosas – tanto faz. O mais importante ali mesmo era o tempero das palavras, o colorido perfumado e sinuoso da poesia, os acordes variados e sublimes disparados por aquela prosa e seus, meus, nossos sentidos ali unidos e em polvorosa.

A calda polissêmica da fantasia era sim o que importava e valia a pena. E dali por diante, minha tarde e audição se tornaram ainda mais saborosos e produtivos.

Porque somente quando me entreguei inteiramente à beleza daquele momento, consegui desviar minha atenção das dívidas, obrigações, demandas, tarefas, queixumes, faltas e todos os problemas que cotidianamente habitam nosso dia a dia e impregnam nossas rotinas e retinas já fatigadas – pelo menos as minhas…

E aquele papo ali, em um dispositivo de saúde mental, se tornou um bálsamo contra esses tempos de fascismos descarados, de crise, ajuste fiscal, golpismo, lava-jato, tiroteios, violências, mar de lama, crimes ambientais, atentados, injúrias, ofensas, denúncias, linchamentos. Tempos de inimigos declarados e dedos indicadores apontados de todos contra todos de todos os lados.

E é por isso que além da pureza da resposta das crianças, eu fico também com a poesia dos delírios dos insanos porquanto ambos tornam a vida mais bela e mais leve e mais fácil de ser vivida e levada adiante, pela simples noção de que é a vida e que é bonita e é bonita – e é bem mais!

 

Rodrigo Bodão

 

(*)   Macondo é uma aldeia onde se passa o romance Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez. Para maiores informações, acesse: https://pt.wikipedia.org/wiki/Macondo