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O RACISMO NOSSO DE TODO DIA

Por: Rodrigo Bodão (rodrigo@observatoriodefavelas.org.br)
Foto: http://ddh.org.br/nota-publica-sobre-o-caso-de-rafael-braga/

No dia 28 de agosto, o Observatório de Favelas realizou, no Centro de Artes da Maré, o seminário “Direito à Comunicação e Justiça Racial”, promovendo o debate acerca de diversos temas relacionados com a questão do negro e do racismo no Brasil, tais como a naturalização da violência, a forma como o negro participa na mídia, a relação do racismo com o sexismo, homofobia, dentre outros tópicos.

Na mesma semana, dois casos de racismo despontaram e dominaram, em graus e intensidades variadas, a atenção das redes sociais e da mídia de modo geral.

Triste coincidência? Triste, sim, mas coincidência? – de modo algum.

Esses acontecimentos são mais uma prova de como o racismo está incrustado em nossa sociedade e essas histórias não representam nem devem ser tratadas como meras coincidências ou casos isolados, mas acontecimentos que ocorrem com frequência.

Além disso, a forma como cada caso repercutiu e as reações variadas que produziram são importantes elementos de análise do problema.

No primeiro caso, temos a prisão do morador de rua Rafael Braga Vieira, condenado por carregar consigo materiais de limpeza que supostamente serviriam para a produção de artefatos explosivos durante uma manifestação ocorrida no Rio de Janeiro em 2013. No segundo, o jogador de futebol Aranha sofreu uma série de xingamentos e agressões racistas de parte da torcida do Grêmio.

Sem desmerecer a magnitude do crime de racismo praticado por torcedores gremistas, é digno de nota que esse caso tenha ganhado tanta atenção e um caso tão ou mais gritantemente absurdo de racismo não ganhe a mesma projeção.

Rafael foi condenado por carregar material de limpeza – uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária – que, na visão dos policiais e juízes envolvidos, serviria para a produção de um coquetel molotov. Mesmo diante da inconsistência dos argumentos usados para sua prisão, da impossibilidade dessas garrafas serem usadas com esse intuito por não provocarem atrito e pelo ínfimo poder de combustão dos produtos químicos encontrados, o juiz responsável manteve sua prisão, apenas diminuindo em quatro meses sua pena inicial de cinco anos de reclusão.

Não é difícil concluir portanto que, na verdade, Rafael não foi condenado pelo que carregava. Na verdade, pouco importa se o processo se baseia em provas absurdas, kafkianas. Rafael foi condenado por ser um morador de rua, jovem, negro, que praticou pequenos furtos no passado e é usuário de drogas, sendo já de saída culpado por existir. O conjunto de estigmas e estereótipos que envolvem esse jovem o configura segundo um perfil próprio de um indivíduo delinquente e indesejável, invertendo a presunção de inocência que protege ou deveria proteger todo cidadão brasileiro. Prova disso é a minúscula repercussão alcançada que nos faz perceber aí a expressão de um consentimento velado por parte da sociedade que não se mobiliza para enfrentar a injustiça e a violência dessa prisão.

No caso do jogo do Grêmio, o racismo aparece de maneira mais evidente, na forma de um xingamento, uma agressão direta, objetiva, ostensiva. Uma série de circunstâncias contribuem para o alcance e repercussão produzida: estar sendo televisionado; envolver uma paixão nacional como o futebol; ter como vítima um atleta, representação moderna da altivez do herói e do guerreiro; a existência prévia de um movimento mundial de moralização e enfrentamento, ainda que tímido, do racismo no esporte; rivalidades entre torcidas, dentre outras razões. Todos esses elementos contribuíram nitidamente para que os usuários das redes sociais e os grandes veículos de comunicação se mobilizassem imediata e contundentemente em torno do caso.

Repito: não quero com essa linha de argumentação minimizar de modo algum o ocorrido no Rio Grande do Sul, nem muito menos dizer que essa reação deveria ser menos estrondosa. Longe disso, acho que a repercussão deve ser aproveitada como modo de aprofundarmos o debate sobre o racismo – interesse que move inclusive a produção desse texto. Entretanto, inegavelmente as reações distintas relacionadas a esses dois casos de racismo são emblemáticas como dois pesos e duas medidas que revelam sintomaticamente a forma como vivenciamos o racismo na sociedade brasileira.

Em comum, ambas situações são tratadas como casos singulares que não revelam um racismo estruturante da sociedade brasileira, mas antes exceções que devem ser combatidas com firmeza.

Ou melhor, apenas no caso do futebol, onde podemos assistir reações mais inflamadas, muitas vezes inclusive misturadas com expressões e imagens sexistas e homofóbicas.

No caso do Rafael Braga Vieira, o silêncio dominante é ensurdecedor e revela gritantemente os lugares reservados para os jovens negros, moradores de rua e oriundos das favelas e periferias da cidade por uma parcela majoritária da sociedade brasileira: na invisibilidade insalubre e violenta das prisões, ou na frialdade inerte das valas comuns dos cemitérios.

Para saber mais:

http://www.geledes.org.br/quem-e-rafael-braga-vieira-o-unico-preso-por-crime-relacionado-protestos-brasil-ele-portava-pinho-sol/#axzz3CFmvKlKz

http://www.carosamigos.com.br/index.php/cotidiano-2/4411-rio-tj-mantem-catador-preso-por-portar-pinho-sol-vigilia-reuniu-200-pessoas

http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/gremio/noticia/2014/08/aranha-se-pronuncia-sobre-caso-de-racismo-esse-mal-mostrou-a-sua-cara-4586265.html

http://www.dw.de/futebol-racismo-e-o-mito-da-democracia-racial/a-17895600