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Paisagem e choque cultural

Alice Flicts

 

O Preliminares encerrou os bate-papos de hoje em Vila Madalena, na galeria Choque Cultural. Em uma roda que reuniu moradores e interessados em arquitetura, urbanismo e intervenção dentro do espaço urbano. A discussão iniciou a partir do projeto de construção do Parque Vila Madalena, proposto com o intuito de recuperar parte da área aquífera que encontra-se sob o bairro.
Segundo Ana , arquiteta urbanista e uma das responsáveis pelo projeto, a população de São Paulo perdeu a relação com a água, que se torna um fator “que atrapalha” a vida na cidade. “Estamos sobre águas” reforça , “na cidade inteira você pode andar num raio de 200 metros que, ainda assim, estará sobre aquíferos”.
A conversa que permeou a questão do urbanismo e da forma como São Paulo vem se estruturando ao longo da história trouxe à tona um debate que tem reincidido nos diálogos do Encontro de Comunicação: o morador da cidade e sua forma de lidar com o urbano em suas variadas dimensões.
Para Valter Caldena, arquiteto urbanista da bienal de arquitetura de São Paulo, presente na roda de discussão, os habitantes são induzidos a achar que São Paulo é uma cidade sem potencial de mudança. Esse imaginário da cidade, para Caldena, foi imposto por muito tempo porque havia um interesse nisso, possibilitando-se assim a construção de uma cidade espalhada e de fácil construção.
Essa aposta em uma cidade em que o plano diretor não prevê a construção urbanística inteligente é a maior responsável pelo caráter gentrificado das políticas de reestruturação arquitetônica da cidade. A gentrificação, como é conhecido o ato de reestruturação de certa área da cidade, com o intuito de retirar daquele local um grupo ali presente que não é visto como interessante para aquela região, é um processo de limpeza social e suas consequências vão, desde a inflação da região, ao abuso do poder por parte do Estado sobre uma minoria.
“O movimento de expulsão sucessiva é o maior fenômeno das grandes cidades atualmente e também o maior desafio a ser enfrentado”. Tanto para Walter Caldena quanto para Ana, a solução para esse processo está diretamente ligada a maior participação popular nas decisões do plano diretor e o maior diálogo entre o público e o privado. Para ambos, a partir da ampliação da comunicação entre essas duas esferas, bem como a requalificação do maior número possíveis de espaços públicos, evita-se que pequenos núcleos da cidade restaurados se tornem o cartão postal da região, não ocorrendo a superinflação desses espaços e a consequente expulsão dos moradores e frequentadores antigos dos mesmos.
A quebra do paradoxo de uma história da cidade construída centralizadamente para Caldena se dá ainda no plano das micro ações , sempre optando por colocá-las em prática, invertendo-se o modelo atual em que o pedestre, o ciclista e o cidadão desapareceram do foco das políticas públicas de urbanização.