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PERIFERIA REVOLUTIONS

“Vou te falar uma parada. Quando eu vi você sendo apresentado pra equipe, eu pensei logo: ‘quem é esse playboyzinho que está vindo trabalhar aqui na favela?’. Mas tenho que admitir que tu é um playboy maneiro, nem é tão playboy assim”.

Essa frase foi emitida há oito anos atrás, num dia que em que tomava cerveja com dois amigos, ambos sociólogos, crias das favelas da Nova Holanda e do Timbau, aqui na Maré, e ex-alunos do pré-vestibular comunitário que deu origem a organizações da sociedade civil como a Redes da Maré e o próprio Observatório de Favelas.

Usando ainda uma analogia com os símbolos matemáticos de pertence/não pertence, está contido/não está contido, eles teorizavam sobre o modo como as pessoas podiam ser oriundas e/ou moradoras das favelas e pensar de modo conservador, reproduzindo a ideologia dominante, e alguém de fora poderia ter ideias à esquerda e uma postura muito mais condizente com o conjunto de proposições que permeiam os espaços de participação voltados para a promoção e garantia dos direitos dos moradores de favelas, periferias e espaços populares.

Nesse sentido, eu não estou contido, pois não moro nem nunca morei na favela ou na periferia; mas pertenço, pois divido das mesmas ideias e posicionamentos políticos que determinados movimentos sociais próprios desses espaços.

E foi assim que há oito anos atrás eu fiz amizade e recebi o aval da rapaziada que trabalhava nessa época no Observatório de Favelas numa mesa de bar do Shoppinho.

Aliás, a cerveja acaba sendo um fator pedagógico e político singular, importantíssimo. Tomar cerveja e rodar os botecos da Maré discutindo política, fazendo articulações internas entre diferentes integrantes das organizações existentes, ouvir relatos acerca da história local, além de saber de um monte de fofoca e ficar bêbado, pois ninguém é de ferro. Enquanto se bebe cerveja se faz política – isso é fato.

Assim, talvez por ter entrado no circuito dessa maneira, apesar da questão da representação percorrer insistentemente as discussões políticas realizadas, eu sempre tive uma boa circulação e aceitação nos fóruns, articulações e conselhos. Em parte, por saber os limites da minha participação, uma vez que eu nunca falaria em nome das favelas ou como favelado, mas antes como representante de uma organização que se constitui no cenário como um ator político importante pelo conjunto de conceitos e argumentos formulados e pelo reconhecimento conquistado a partir das ações e projetos desenvolvidos.

Esse lugar de fala, portanto, pensado como o local e o modo como o conhecimento é produzido, é um viés legitimador importante para uma organização da sociedade civil. Ao invés de representar a favela no sentido de falar por ela, o que sempre se buscou nessas articulações é potencializar e sofisticar os argumentos de modo que fiquem mais potentes e incidam positivamente no cenário político. E na ESPOCC, aliás, é onde talvez essa potencialização se apresenta de maneira mais explícita entre todos nossos trabalhos.

Por fim, até para fazer jus ao título, para além de somente uma referência a uma trilogia, o modo como fui aceito e conhecendo os botequins e as quebradas mais escondidas desses emaranhados de becos e vielas, ao longo do tempo, me revolucionaram em diversos aspectos.

Ao final de diversas reuniões em inúmeras favelas da cidade, partíamos em rolés para conhecer a localidade e, como não podia deixar de ser, discutir política, encher a cara, curtir o baile, um pagode, uma festa na laje de sei lá quem e por aí vai.

Decerto esse circuito e o hábito de dormir fora de casa não fez muito bem para o meu casamento da época. É verdade… Mas enfim, ampliou minha visão de favela, assim como da cultura e da arte que é produzida nesses locais. Revolucionou meu gosto musical, meu paladar, ampliou meus horizontes e modo de ser. E na lógica dos encontros para a superação dos limites que o preconceito erige e separa a cidade, essa espécie de conversão é um elemento fundamental.

Como vimos nas falas sobre a periferia, é preciso dar espaço e potencializar as vozes dos invisíveis, para que ganhem força e efetuem as mudanças necessárias para uma cidade, um país e um mundo mais democrático e menos hierarquizado e dividido.

No entanto, não apenas para falar entre si, em espaços fechados e seletos, de convertidos, repetindo o que se pretende enfrentar. É preciso mais, é preciso falar mais alto, ampliar a participação e ocupar cada vez mais espaços políticos, sociais, culturais e artísticos diversos.

E nesse sentido, qualquer morador da cidade que pertença à luta, mesmo que não esteja contido, pode ser um ator e um aliado importante para efetivar essa transformação que, especialmente por conta do cenário político dos últimos anos, já está efetivamente em curso.  

Rodrigo Bodão