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POESIA – Georgina S. S. Viana / Josí Viana

Com a palavra, Georgina S. S. Viana/ Josí Viana:

 

“Acredito que sim, tenha muita importância para quem gosta de escrever falar sobre como aconteceu esse meu namoro com as letras, com as artes, de um modo geral, em se considerando a vida num planeta, num país que veio se tornando, abruptamente, digital, pondo de lado um produto que sempre habitou o universo infanto juvenil de todos nós, o livro feito em papel . Morei em Brasília por quatro anos, de 1970 a 1974 . Durante as férias escolares passadas no Rio de Janeiro, sempre ia para a casa de uma das minhas tias maternas, ficando largada no sofá de uma salinha pequena, calorenta, devorando Menotti Del Pichia, José de Alencar, Jorge Amado, Zélia Gattai, Machado de Assis, Odilo Costa Filho e outros tantos autores da nossa literatura. O que fez uma adolescente abandonar as suas aventuras, próprias da idade? O hábito pela leitura, sem a obrigatoriedade, a paixão. Daí, nasceu a mania de rabiscar a minha visão de mundo em pequenos versos, ocupando as últimas folhas dos cadernos e dos livros, encantando aos professores .

Os anos passando e, como tinha  de ser, a mania transformou-se em exercício, crescendo e amadurecendo. A partir de 1975 e já de volta ao Rio, segui participando dos Festivais Escolares de final de ano. Tornei-me professora em 1980, passei pelo teatro de 1990 a 2004, fazendo skets em Projetos Escola com os Grupos Em Cena Ação e Hipócritas, dando vida aos textos de Nélson Rodrigues – A Mulher Sem Pecado , como Inézia; Boca de Ouro, como Dona Guigui – e Pernambuco de Oliveira – como Ursinho -, participei do Festival de Novos Talentos de 1992 e cheguei às Coletâneas de Jovens Escritores. Na Lítteris, em 2005, “Viver É Melhor Que Sonhar”, com a poesia “Rodas”. Em 2006, “E Por Falar Em Amor … “, com “Cantiga Nº 36″; “Para Não Dizer Que Não Falei De Tudo”, com “Um Pouco de Loucura”. Em 2007, com “A Viagem”, apenas um pensamento relâmpago para “O Diário do Escritor”.

Atualmente, sempre que o trabalho dentro e fora de casa permite , publico no site Recanto das Letras . Venho dedicando o meu tempo a um projeto antigo, o de escrever um livro.

O que impulsionou esse caminho, além da paixão pela leitura? O talento, concedido por Jeová Deus.”

 

AQUARELA

 

E a sala ficou vazia …

“Como foi que isto aconteceu?”

“Alguém testemunhou o roubo dos móveis?”

“Já avisaram a polícia?”

Naquele espaço – outrora em movimento -,

Ainda foi possível ouvir as cadeiras rangendo, sacolejadas.

As imagens no espelho, criminosamente, bloqueadas.

As flores no vaso chinês, putrefatas.

As janelas batendo, descontroladas.

Um lustre apagado, o cheiro dos cigarros, os sussurros.

Os bigodes, as calcinhas, as bonecas, a música.

E um sol escondido, violentado.

“Hã …? De onde vem este barulho?”

“Você viu alguma coisa?”

“Ai, estou com medo.”

O fato: um dia, a sala amanhecera!

Mas ninguém ousou testemunhar-lhe a vida …

 

MARGINÁLIA

 

Enquanto me despojam as vestes,

Visto as que são douradas.

Armada entre tantos bastões, sou por eles

A Mártir da podridão,

Marco ilusório de Liberdade.

Por rasgar estradas na poeira, por falar em nada,

Sou mais uma que absorveu esta mortalha.

Energias mil emanam do meu corpo!

Sacudo os braços, amputados de temor.

Em ruas alongadas e vazias,

Projeto tantas boemias…

Mas tenho um violão quebrado,

Cordas em que faltam sintonia.

E nas vestes despojadas, as mãos e a bofetada.

Por uma noite escura de alegria.

 

LUZES

 

Elas estão no painel do Maracanã.

Na mesa telefônica.

No letreiro do cinema.

Nas lanternas de cada carro.

Nas salas de cirurgia do hospital semi apagado.

No cinescópio da tv, que acende e apaga, sem reclamar.

Nos olhos teus e nos meus, enfim nossos…

No visor deste maldito relógio!

No ouro das alianças.

No diamante falso.

Nas lágrimas do favelado.

O único lugar onde elas não existem

é na lâmpada da minha escrivaninha.

E, por causa disto,

Eu não posso ligar e saber

A que horas começa aquele meu joguinho de pôquer (??)