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Polegar opositor

Já faz algum tempo que venho reparando no teor moralista das postagens e mensagens que veiculam nas redes sociais. Talvez como reflexo direto de uma tendência nacional, os temas vinculados ao comportamento e às condutas morais têm sido insistentemente abordados, seja no que se refere às eleições, seja com relação ao modo como devemos ou não fruir e vivenciar nossa sexualidade, o trato social, as normas de conduta pessoal e coletivas. Modos de ser e de se relacionar com os outros que, em geral, vem à tona no bojo de reivindicações dos movimentos políticos emancipatórios e ligados à garantia e promoção de direitos de minorias sociais.

Até aí tudo certo e é excelente que a sociedade e principalmente os mais jovens estejam antenados nessas discussões e transformações propostas e empreendidas coletivamente. No entanto, fica sempre uma pergunta quicando aqui e ali acerca do alcance desses questionamentos e intervenções de cunho moral.

A diferença entre uma questão moral e o moralismo, a meu ver, se dá principalmente por conta desse alcance. Toda discussão sobre a moral se torna legítima partindo do pressuposto de que quem acusa ou indica um desvio moral esteja minimamente atento para não incorrer no mesmo ato que condena. Do contrário, a discussão resulta numa lógica hipócrita em que o que digo vale para os outros, mas não para mim.

Veja bem que eu não estou falando de uma isenção, num sentido absoluto. Não é disso que se trata a discussão. Somos todos humanos, passíveis de erros e frutos diretos de nosso tempo, de nosso meio, ainda que busquemos, a partir do pensamento e do questionamento de nós mesmos, ascender para uma posição o mais livre possível dessas amarras concretas que o tempo todo agem no sentido de nos moldar e produzir. Assim, somos cotidianamente confrontados, levados a tomar decisões e assumir a responsabilidade de nossos atos.

Por isso mesmo, fico especialmente contente quando vejo pessoas se apresentando publicamente como passíveis do erro, como pessoas que buscam, senão um sentido de depuração das influências racistas, machistas, sexistas e homofóbicas que nos cercam e modulam, mas ao menos a busca interna desses elementos, até como modo de combater melhor a sua expressão e existência interna. Que se assumem, ou melhor, que assumem publicamente esses elementos vibrando no interior de suas próprias reflexões e modos de estar no mundo.

O que me assusta muitas vezes é a forma como as pessoas apontam e indicam erros nos outros sem dar a sua própria cara a tapa, fazendo com que esses mesmos elementos que enfrentam se dissimulem e se assentem nos seus próprios pontos cegos, retorcendo o próprio pensamento e ideal declarado.

Não existe vergonha em assumir traços e características racistas, machistas, sexistas, homofóbicos, etc., contanto, obviamente, que esse ato venha acompanhado ou se justifique como um processo de identificação e enfrentamento dessas condutas e modos de pensar. Do contrário, agimos como os próprios adversários que apontamos, encobrindo nossos erros e agindo histericamente.

Para fazer valer nosso telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor, para além do mero movimento de pinça ou de curtir no facebook, devemos perscrutar também nossos atos e percepções. O inferno são os outros é coisa do passado – e quem aponta deve pôr também a cara a tapa. Do contrário fica um gesto vazio, falso, moralista e hipócrita que definitivamente não muda nada.

Rodrigo Bodão