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Silêncio: tumulto, incômodo, usina e poesia

Rodrigo Bodão

Escrevo hoje sobre o silêncio. Não sobre qualquer silêncio, mas sobre um silêncio específico que vem me acometendo nos últimos meses. Um silêncio, que ao invés de uma paz morna na atmosfera bucólica de certas manhãs, é uma gritaria. Silêncio de palavra amordaçada, de engasgo renitente. Silêncio que é incômodo e usina.

Até porque nenhum silêncio é necessariamente ausência de palavras, ausência de sentidos. Pelo contrário, esse silêncio que me acomete é um tumulto, uma gritaria ao contrário, para dentro, introspectiva e cortante.

Trabalho no Observatório de Favelas desde 2006. Quando entrei, atuei no programa Rotas de Fuga, no eixo de Criação de Alternativas para adolescentes e jovens que desejassem abandonar as atividades relacionadas ao tráfico de drogas no varejo, bem como outras ações ilícitas. Desde esse tempo, apontamos o equívoco perverso do discurso da guerra às drogas, o alto índice de letalidade da lógica do confronto, o absurdo que reside na forma como tratamos as mortes de moradores das favelas como efeitos colaterais de uma guerra justa. Não, não há guerra justa, assim como nenhuma morte, nenhuma forma de homicídio, com ou sem dolo, deve ser naturalizada, de forma alguma.

Do mesmo modo, desde 2006, venho trabalhando para a ampliação de direitos e a redução das desigualdades sociais que tanto marcam o cotidiano brasileiro e o dia a dia das favelas e espaços populares, de modo mais contundente.

Posso dizer que nesse período consigo identificar alguns avanços importantes. Apesar de ainda incorrermos em muitos erros do passado, vejo nitidamente florescer e irromper nas ágoras contemporâneas uma juventude vigorosa em suas intervenções e formas de luta política; um movimento de redução das desigualdades sociais, impulsionada por políticas e ações afirmativas; uma pequena mas marcante ressignificação e fortalecimento político das favelas e periferias, especialmente no campo estético e cultural. Obviamente, ainda há muito, mas muito mesmo o que fazer. Todavia, existem avanços e estes devem ser apontados e ampliados.

No entanto, nos últimos dias, não sei precisar exatamente quantos, me vi diante de uma avalanche de notícias que me soaram fora de contexto, aparentemente anacrônicas, como se eu estivesse voltado no tempo. O sensacionalismo da polêmica dos arrastões e as propostas de segregação do espaço público e limitação do direito de ir e vir; a lógica do confronto é defendida e retomada com força, sendo assumida publicamente como estratégia de governo; tiroteios, operações, violações, execuções sumárias, tiroteios; e a mais pavorosa das notícias: a morte de pelo menos cinco crianças e adolescentes nas favelas cariocas, em praticamente um mês, por conta de uma série de operações bélicas ou outras formas irresponsáveis de ação policial nesses territórios.

E as notícias não param de se repetir. Os discursos calcados no fogo cruzado do ódio e do ressentimento parecem os mesmos de antes – ou de sempre – e o que é pior: as respostas dos setores tidos como mais “progressistas” também parecem ser as mesmas, ressentidas, magoadas, negativas, reativas.

Parece um filme desses que passam em tardes monótonas, indispostas, ressaqueadas: um feitiço do tempo, em que durmo hoje para amanhã acordar ontem. E tudo fica estranho e fora do lugar.

Talvez, de certo modo, o silêncio seja um erro, mas no momento – ou até o momento – ele foi um modo de preservação da vida, da minha vida, do meu humor, de conseguir seguir em frente e analisar a realidade tal como a mim se insinua e presentifica. Para reavaliar minha postura e estratégia.

Até porque, como disse acima, meu silêncio é um tumulto, uma algaravia, uma gritaria e, portanto, para além do incômodo e do feitiço, é também uma usina.

E como tudo se dá mediante relações e interações e articulações em solos sócio-histórico-político-estético-magnífico-culturais, eu sempre encontro no outro, nos outros, em nós, a saída dos meus becos e sinucas de bico.

E agora não poderia ser diferente. Por dois acontecimentos.

Primeiro, a leitura do artigo de Jaílson de Sousa e Silva, diretor do Observatório de Favelas e Eliana Sousa e Silva, diretora da Redes da Maré, publicado hoje no jornal O Dia (1), que remete ao filme “Até Quando”, feito na época de minha entrada na organização e mote de incontáveis representações institucionais e debates que participei naquele período em diversos espaços da região metropolitana do Rio de Janeiro. Nesse momento, vi ser recheada de palavras, significados e fonemas minhas angústias, tornando-me mais forte por não me saber só.

E em segundo lugar, pela energia revigorante que presenciei durante a aula de Publicidade Afirmativa desenvolvida por Eduardo Alves junto à turma de audiovisual nesta terça feira. Todas as propostas, os debates espalhados pelas salas e pátio da instituição, as próprias propostas de campanha e intervenções surgidas nessas discussões e trabalhos me trouxeram de novo para o presente e me fizeram novamente olhar para o futuro numa perspectiva, senão utópica, ampliada, alargando o horizonte e fazendo caber nele também meus sonhos, nossos sonhos de que nós e nossas futuras gerações cada vez mais tenham “a felicidade de ver um Brasil melhor ” (2).

E assim como o silêncio, esse texto tem várias acepções: de estréia, já que não havia escrito ainda aqui para vocês; de antídoto, botando as palavras para fora, na roda, na pista pra negócio; e de agradecimento, porque sem esse contágio de vida e de energia, essa irrupção e esse texto não seriam possíveis.

Afinal, isso aqui é ESPOCC, e agir afirmativamente é isso: incidir, intervir, botar a boca no mundo, sacudir a poeira e dar a volta por cima, por baixo, de ladinho, com todo nosso vigor, inventividade e potência!

Obrigado. Tamujunto e vamos juntos, até porque, parodiando Raul Seixas, SONHO QUE SE SONHA JUNTO, VIRA REALIDADE!

E pra terminar, um cadinho de poesia.

Beijos!

 

REINVENÇÃO

 

A vida só é possível

reinventada.

 

Anda o sol pelas campinas

e passeia a mão dourada

pelas águas, pelas folhas…

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas

de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

 

Vem a lua, vem, retira

as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços

cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…

Só — no tempo equilibrada,

desprendo-me do balanço

que além do tempo me leva.

Só — na treva,

fico: recebida e dada.

 

Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

 

Cecília Meirelles

 

(1) http://of.org.br/noticias-analises/dez-anos-sem-resposta-para-uma-pergunta/

(2) https://www.youtube.com/watch?v=Lq1G3oR-ek0