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Sobre a intolerância I

Motivado tanto por conta das manifestações de ódio e intolerância que vem se repetindo e, em certo sentido, intensificando no espaço público, conforme indiquei em linhas gerais no último texto aqui do blog, nas próximas semanas tratarei especificamente sobre o tema, realizando diferentes abordagens e análises do fenômeno. Esse interesse se dá ainda também pelas discussões internas que vem sendo travadas no Observatório de Favelas, seja em espaços coletivos de formação ou mesmo através de conversas informais, numa tentativa de fazer uma ponte entre essas discussões e o processo de formação crítica da ESPOCC.

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Uma primeira perspectiva de análise possível para a intensificação das manifestações de ódio e intolerância vivenciadas nos últimos tempos no espaço público, mas principalmente nas redes sociais e em comentários realizados em diversos sites e blogs, aponta, grosso modo, para as transformações sociais desenvolvidas no período histórico recente, mais precisamente entre o final do século XX e começo do século XXI.

Desde os movimentos de contracultura dos anos 60 e 70, quando foram levantadas e potencializadas uma série de bandeiras políticas que questionaram o status quo vigente, se articularam as bases para as lutas e para a formação de diversos movimentos sociais emancipatórios como o feminismo, a reforma psiquiátrica, a luta contra o racismo, o movimento LGBT, etc. Esses movimentos levaram à criação e ao fortalecimento de um conjunto de críticas contundentes dos conteúdos e expressões machistas, sexistas, homofóbicas na sociedade, dentre outras formas de opressão, produzindo questionamentos que embasaram a proliferação de novos conceitos e novas visões de mundo, impulsionando e fundamentando diversas transformações nos campos jurídico, político, social e cultural de diversas nações.

Concomitantemente, podemos perceber no Brasil, principalmente a partir dos anos 80 no bojo do movimento de redemocratização, a constituição de um conjunto de marcos legais e políticos que serviram como uma importante ferramenta de luta e reconfiguração da forma como se estrutura a sociedade brasileira.

Sem sombra de dúvida, um papel importantíssimo foi desempenhado pelas ações afirmativas – e dentre elas, com um destaque e protagonismo indiscutível para a política de cotas raciais. Essas políticas públicas impulsionaram o empoderamento de grupos sociais minoritários e vêm, desse modo, produzindo novas relações de poder com a ascensão social e econômica de novos grupos em detrimento de uma tradição patrimonialista, monopolista e oligárquica que, apesar de ainda vigorar em nosso país, vem paulatinamente perdendo espaço e força.

Desse modo, é justamente por conta do acúmulo dessas perdas por esses grupos majoritários que as manifestações de ódio e intolerância tem se desenvolvido e intensificado. As classes dominantes, há tanto tempo acostumadas com o usufruto de privilégios e direitos exclusivos, sempre encontraram nas desigualdades sociais um solo fértil para cristalizar e naturalizar suas formas de dominação e opressão sociais. Assim, não há de fato surpresa alguma na adoção de uma lógica reativa e violenta como uma tentativa de reversão desse quadro.

Essas perdas, convenhamos, ainda são poucas em relação ao conjunto da população brasileira – o que não quer dizer que tenham uma pequena magnitude ou sejam menos relevantes. Muito pelo contrário, é justamente por seu alcance, abrangência e profundidade que essas transformações incomodam tanto.

A maior presença de estratos populares nos aeroportos, as conquistas de direitos trabalhistas das empregadas domésticas, o debate a respeito do aborto e da descriminalização e legalização das drogas, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a expansão universitária, a construção de uma massa crítica representativa da população negra que questiona e não aceita mais o modo como o racismo se difunde e reproduz em nosso cotidiano… Enfim, esses e outros elementos que compõem uma gama variada de avanços, conquistas e proposições que eram totalmente impensáveis de serem efetivadas ou mesmo postas na arena pública há trinta anos atrás e que agora ganham força por conta da ação política de organizações da sociedade civil, movimentos sociais, partidos políticos, dentre outras formas de ação coletiva. Forças diversas que pouco a pouco foram avançando e reconfigurando o contexto sociocultural que vivemos.

É lógico que ao longo do caminho foram sendo cometidos erros que começam a cobrar seu preço agora. Erros que contribuíram para a produção de novos problemas e novos desafios, como era-se mesmo de esperar em um processo que é vivo, aberto às intempéries da vida e às incontáveis contingências históricas de um mundo em constante e permanente transformação.

Portanto, apesar do quadro ser efetivamente preocupante, para começo de conversa é bom que tenhamos em mente o caráter reativo e o ressentimento que modula em grande parte essa onda de intolerância que vivemos, como uma resposta das classes e grupos dominantes para as conquistas sociais efetuadas nas últimas décadas. Diante disso, de certo modo, é perfeitamente compreensível todo o ódio de classe, todo reacionarismo e mesmo a força que o pensamento conservador conquistou durante as últimas eleições.

Dessa maneira, é salutar iniciar essa série de textos afirmando esse processo de transformação do contexto nacional que vivemos de onde deriva essa força, que se presentifica como um reflexo direto das conquistas e dos avanços significativos desenvolvidos no país na direção da superação das desigualdades e da construção de melhores condições de vida para o povo brasileiro e, especialmente, para as camadas mais pobres dessa população.

Um olho no peixe, outro no gato, mas com calma – pois o peixe tá ficando bonito e o gato já não é tão forte como foi um dia.

Rodrigo Bodão